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Casa/Árida
A casa árida, "árido movie", move areias, move manhas e manhãs, move dunas, move entranhas, move o seco de um lugar para outro e de outro para qualquer lugar. Onde o tempo não se mede, nem se despe ou se despede. Que o tempo te leve para onde o vento não ousa te alcançar. A casa árida é feita de pó e ao pó voltará, de dunas que movem e removem, mas não te movem da dor do peito que um dia secará. A areia me envolve como lençóis, me sustenta como colchão e me muda de lugar do chão, sem que eu precise me movimentar. A casa árida não tem móveis, não faz parte dos imóveis, mas se move todo dia, quente sob o sol ou sob a noite fria. O tédio é música ao som das areias do tempo que se movem com o vento, a farfalharem, lento, lento, lento. Nada me leva para nenhum lugar. Nada te trás de volta para cá. Nenhum insignificante grão de areia se identifica entre tantos trilhões de seus infinitos irmãos gêmeos. Nenhuma notícia tua chega em carta deserta. A casa árida não tem área onde se possa ouvir uma ária. Sahara sem sala. Atacama sem cama. Não tem panelas para se arear. Não tem visitas para chegar. Não tem nada para se fazer. Somente esperar, esperar, esperar. Imagem granulada. TV fora do ar. Vidas secas me fazendo estatueta. Moro aqui dentro da ampulheta. A Casa árida é sempre assim.
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 15h19
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Poeteria Crônica 36

Crisálida
Até hoje, porém desde os primórdios de sua reles vida, Sophie jamais havia se sentido viva, mesmo porque, não tinha tempo para isso. Como esclarecer estranho fato? Tão jovem e esquálida, vivia a suspirar com as historietas felizes dos outros. Sendo assim, dedicava-se ao mundo alheio, servir a mãe, ajudar o pai, consolar a irmã, ajudava até romper-se em fadiga. Temente a Deus e desconhecedora das intrigas, considerava crível qualquer tipo de sofisma que chegasse aos seus clássicos ouvidos. Como chegava as notas de Mozart, Vivaldi, Bach e o submergível Mahler que a penetrava com seus adágios, como adagas vindas do desconhecido. Dádiva essa que provinha de Sarah, sua irmã que sentava-se ao piano mesmo quando estava com certa debilidade física. Com o peito arfante, Sophie se dedicava a um pequenino prazer, chegava a vidraça embaçada com vista para o jardim e ali sentia a vibração das asas das Lepidopteras - Sim! Ah! As Lepidopteras! - referindo-se as borboletas e mariposas em seus vários estágios de vida. Era assim que vibrava e bradava seu admirável pai. Um zoobotânico renomado e que já havia navegado por todos os oceanos. - Os quatro cantos do mundo! - como dizia o mesmo, inflado em orgulho. Mas Sophie havia passado a vida num colégio interno sob a sentinela das tão severas madres. Tal fardo, de infância e adolescência enfadonha, se deu devido as viagens de seu pai e a necessidade de sua mãe tão amorosa e que não deixava de acompanhar o esposo, o que definia como mais do que uma obrigação. O que a tão fiel esposa ignorava era a tamanha dedicação do marido as mariposas da noite onde ele se embriagava de perfumes nos cabarés enquanto dizia se tratar de reuniões de assuntos para homens – Para homens inteligentes! A companhia da calada Sophie não havia acalentado suficientemente “a pobre Sarah” – como diariamente seus pais se referiam. Foi assim que num gélido inverno, Sarah convalescendo-se de uma pneumonia teimou em dedilhar as quatro estações, sem alcançar o verão de seus dias ou a primavera de sua vida, entregou-se de repente ao oculto carrasco fazendo ressoar pela casa a última nota, a mais alta, a da partida. Seu pai inconsolável partiu em viagem sem data de retorno e sua mãe tão dedicada as obrigações de esposa não hesitou em segui-lo como um cão fiel. Ninguém se lembrou do que seria de Sophie, sozinha, só. Da janela, Sophie via as Lepidopteras, Papilionoideas e Hesperioideas. As asas batiam lhe transmitindo vida em seu corpo que vibrava por dentro como algo que ela desconhecia. O que fazer? Não tinha mais ninguém para cuidar, toda a vida da casa havia se esvaído. Só permanecia ela, ali perambulando em seu vestido branco, por uma casa sem alma, ela alma penada de si, fantasma que se assombrava sem ver luz, a luz de um novo dia. Não resistiu em buscar vida. Desceu ao sagrado local de trabalho de seu pai, do qual sempre foi incumbida de manter impecável. Ali havia um borboletário, e nele entrou, com várias espécies de plantas, frutos, e lepidópteras de várias subordens como as Zeuglopteras, Dachnonyphas, Monotrysias e Ditrysias. Sophie sentiu seu primeiro sopro de vida, livrou-se de seu vestido branco-lagarta, e crisálida de si, deitou-se sobre o chão, como veio ao mundo, deixou-se ser acariciada em todos os pontos de seu corpo imaculado, agora coberto pelas pequenas asas coloridas, confeccionando assim, o sonhado vestido de baile que sonhara. Quando achava que era a morte que vinha com aquela agitação de órgãos, sentiu-se extasiada como se chegasse ao éden. Ainda úmida e perdida, libertou a lepidópteras do claustro. Ainda crisálida, nem lagarta, nem borboleta, decidiu parir-se da casa-casulo-casca. Meses depois, pai e mãe chegaram cheios de aventuras nos olhos. Quando encontraram o borboletário vazio, o zoobotãnico não tolerou em saber que havia perdido as centenas de espécies catalogadas, de longa jornada de buscas intensas, sendo assim o desgosto o capturou em sua rede astuta. Já a esposa dedicada procurava sedenta a maldita libertadora de lepidópteras, para castigá-la como um inseto desprezível. Após correr esbravejando e blasfemando o dia em que havia gerado a tal ingrata, se deparou com a virtuosa e casta alcova. Vazia, apenas o casulo-vestido pendurado em um cabide, enquanto o vento fazia com que as portas do guarda-roupa batessem, assim como que querendo voar.
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 00h10
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