Poeteria Crônica 31

O Retorno da Poética
Ao som de sirenes ela despertou. Assustada e perdida no tempo, não sabia ao certo quanto tempo havia levado sua hibernação, mas sentia que algo não andava bem.
Seus filhinhos estavam na FEBEM, não faziam mais malabarismos com fogo nos faróis.
Foi então que a Poética novamente saiu nua para a rua e com sede e fome de procriar, mais promíscua do que nunca, se enfiou em todos os cantos e becos.
Desfilou pelas feiras e todos a quiseram provar como carne de primeira. No cinema pornô, todos achavam que ela havia saído de dentro da tela, Rosa Púrpura Nua do “Cairalho”.
No baile funk, a Poética se entregou a tudo e a todos mais uma vez, enquanto era chamada de cachorra.
- Ela está descontrolada!
Nas ruas, alguns a xingavam, lhe atiravam coisas, Maria Madalena pós-moderna.
Na FEBEM não lhe deixaram visitar seus filhos e ainda assim foi presa por atentado ao pudor.
Logo uma juíza a condenou sem direito a defesa ou explicação e a jogou numa cela com vinte homens presos pelos mais diversos crimes sórdidos, vinte esses, que talvez um dia na longínqua infância tenham ouvido falar da Poética, mas às vezes em algumas vidas não há tempo para isso.
Agora a Poética estava jogada numa cela suja, sendo possuída e repossuída como num "Gang Bang".
A Poética não resistiu e se desfez em mil pedacinhos sórdidos que escapavam por entre as grades como sujeira e ganhavam as ruas, se espalhavam pelo mundo.
Ainda que o gene mais forte havia prevalecido, novecentos e noventa e nove Poeminhas peladinhos cresciam robustos e em instantes saiam por aí metralhando Poesia em versos perdidos.
Somente a milésima parte, um único pedacinho não havia dado certo e tramava o que poderia fazer para combater aquelas centenas de seus irmãozinhos.
Precisaria de muita força, foi então que decidiu descansar enquanto pensava numa boa estratégia de ataque. Enquanto se espreguiçava e alongava seus membros, um belo corpo de mulher se fazia, e ao se olhar no espelho, sentiu desejo por si mesma, era hora de - a Sórdida ir para as ruas e esquinas ganhar vida, ganhar a vida...
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 15h14
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