Poeteria Crônica


Poeteria Crônica 29

 

Casa/Árvore

 

Agora estou na casa/árvore

De alicerce/raiz e telhado/copa

Tronco/porão e paredes/galhos

Narizes – janelas – folhas

É a casa/árvore para você subir

Não é a do João de Barro

Mas o João pode vir

Parar o carro

Até tirar um sarro

É a casa adulta das doces lembranças da infância

Tão solidificadas em sorrisos que fogem por entre as folhagens

Risinhos e murmúrios que escorregam pelo tronco até as raízes

Escorregador de amor e dor a dar cor

As alminhas do passado fazem ciranda e rodopiam até desmaiarem

A floresta de João e de Maria

Das Marias de João

A árvore cresce como o tal pé de feijão

Até cutucar a cloaca da galinha dos ovos de ouro

Então espero no futuro presente o passado chegar

Repaginado em fábula encantadora

Sensual e arrebatadora

Espero que ele alcance a árvore

Que não para de crescer e não tem pretensão em ter elevador

Ele mora longe

O caminho é deserto

E o lobo mau passeia aqui por perto

Ainda bem!

 

 



Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 20h54
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Poeteria Crônica 28

           

 

LLL

 

LLL, era assim que se denominava nas salas de bate papo, era assim que esquentava em dia de noite fria.

Desta maneira, a Loura atraía mais um estranho visitante para seu apartamento. Mais um dia, mais uma semana e mais um ano. Nada mudava.

Mesmo sendo uma executiva de sucesso, havia o ócio das tardes, Lânguida se afundava em sua confortável cadeira atrás de sua mesa de vidro, mesa de decisões, mas sobre sua própria vida, nada conseguia decidir, assim encerrava mais um dia, no alto de um arranha-céu.

A noite ela era outra, era Lasciva, era chegada a hora de viver sua verdadeira identidade escondida, LLL, e atrair para sua alcova gelada, mais uma presa, sugar sua boca, seu corpo, toda a sua energia, sentia-se uma vampira contemporânea.

Do lado de fora da janela sempre podia ver um homem estranho - digo estranho mesmo, no décimo segundo andar, estava ele ali sentado no parapeito, com sua fisionomia bossal, vestido em um sobretudo negro, fumando sem parar.

Mais uma noite, mais uma lingerie nova para mudar um pouco a rotina, uma outra marca de vinho dentro da taça ou sobre um novo corpo, novo copo de desejo, novo líquido quente escorrendo sobre seu mesmo e fatigado corpo.

Às vezes enquanto se entregava ao novo amante, enquanto o corpo dele conhecia o seu por dentro, ela fixava os olhos no estranho que pairava no ar pelo lado de fora, o bossal vigilante.

Alguns dias, conhecia seus amantes em cafés, em shoppings centers, e o fumante de sobretudo negro sempre a espreitar.

Foi numa noite chuvosa que descobriu quem era ele, um novo acompanhante lhe amarrou a cama com uma echarpe vermelha, fez e desfez, assim foi encontrada no dia seguinte, nua, amarrada e de olhos abertos perdidos no meio do nada, ou espelhando a face de seu último amante perturbado.

Agora LLL sabe quem é o homem de negro, pois é ao lado dele assim foi encontrada no dia seguinte, nua, amarrada e de olhos abertos perdidos no meio do nada, ou espelhando a face de seu   que fuma também mais um cigarro, ambos sentados no parapeito da janela do décimo segundo andar. Enquanto sorriem, vêem o seu antigo corpo ser retirado, embalado e transportado, mais um caso de polícia sem solução.

Entre uma tragada e outra o anjo da morte a abraça com seu sobretudo negro. Um anjo gelado, mais de beijo quente que lhe diz:

- Vamos! Loura, Lânguida, Lasciva ...



Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 10h30
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