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42

A Volta da Mulher-Livro
A mão aberta e espalmada acariciava mais uma vez aquele dorso, aquele tronco, aquela pele anunciada em letras douradas. Esperta e com capas abertas como um pára-quedas para amortecer a própria. Mas a mão do leitor de nada quis saber e enfiou-a, arquivando-a como que para sempre na estante. - Que petulância, que despautério! – pensava a mulher-livro. Depois que o tal leitor havia gozado, graças ao seu corpo e conteúdo, numa relação de alguns dias, já que o leitor era um tanto lento, e considerando que, seu conteúdo era um tanto farto, resultando assim em uma semana de romance interno e externo. Estando assim satisfeito, lhe dava as costas, como algo vencido e superado em sua medíocre vida de leitor faminto. Mais um, mais uma, e partia para a outra prateleira a usufruir de mais um corpo, para se deleitar de outra ostra literária. - Não se abram, não se deixem levar, não se entreguem! – exclama a mulher livro ao ver-se sendo descaradamente, trocada por outra, ou por outro. – Quanta promiscuidade! Mesmo em meio à multidão da estante, sentia-se só e pensava lá com suas páginas. Um dia ele quis me levar para sua casa, sem poder impedir, fui. Sei que, o que o atraiu foi minha capa, é a primeira coisa que atrai alguém, em segundo lugar foi o título - Incrível como os ditos seres humanos ainda se prendem tanto, e agem tanto, movidos por títulos! Chegando em seu lar, ele me desnudava, me acariciava página a página com suas mãos de pianista, tocando-me como um instrumento raro. Conheceu-me totalmente por dentro, primeiro desfrutando de minha contra-capa, degustando minha introdução, deliciando-se com minhas linhas e entrelinhas, devorando-me em capítulos, fartando-se com brilho nos olhos a cada revelação, depois chegou comigo ao prazer final, salivando com tal ambrosia literária, com olhar malicioso e saciado. Não me abriria mais com suas mãos, não colocaria mais seu marcador de couro dentro de mim, dividindo-me em partes. Então segurou-me fechada, assim descansei um bocado de tempo, quase adormecendo em repouso sobre seu sexo intumescido. Doce ilusão momentânea, não me abriu mais, não me tocou, apenas arquivou-me como tantas outras, como tantos outros. Sendo assim, seria tudo ou nada, atirei-me quando ele passava, com reflexo ligeiro, este me amparou com palma macia, não resistiu, abriu-me, vociferou uma de minhas partes mais prazerosas, não resistindo, manteve-me aberta, a devorar-me novamente. Assim, levou-me novamente para sua cama, sorrindo. Era só isso que eu queria, mais uma vez. Havia valido a pena esperar, já havia se passado cinqüenta anos, até atirar-me na sua frente após decidir o arriscado suicídio com final feliz. – A volta da mulher- livro. Não sabia quanto duraria, mas quem sabe? Poderia tornar-se seu livro de cabeceira definitivo e deitado sobre o criado-mudo e sob o despertador calado, eterno triâgulo amoroso adormecido ao lado do amado leitor envelhecido.
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 13h52
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41

As Vidas Normais de Wong Kar Wai
"My Blueberry Nights" ou "Beijo Roubado" - Tortas, olhares tristes, perdidos numa cidade escura, quase abandonada, trens passando, brigas ao fundo, letreiros em néon como sempre. Tudo passa rápido, mas existe sempre alguém ali estacionado no tempo, ou melhor, em um balcão. Vidas sempre normais, onde muitas vezes deixamos de ser protagonistas de nossas próprias vidas, para que se dê lugar a vida dos outros. "Cinema Noir" contemporâneo. Olhares, lágrimas, ruas, desencontros, pessoas comuns. Olhos que não querem dizer, bocas que não querem pedir. Idas e vindas. Tudo volta para o começo. Beijos não dados, beijos roubados. Vidas se cruzam, pessoas se conhecem casualmente. Momentos felizes e calmaria saem do caos e da infelicidade. Desfechos comuns como na vida real. Quase felizes. Mesmo porque, na vida real não existe fim. Pura poesia do concreto, das estradas e das esquinas. Imagens que dizem mais que mil palavras. Isto é mais ou menos Wong Kar Wai - no cinema/crònica do dia-a-dia.
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 22h42
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40

Os Fantasmas se Divertem
Quando os fantasmas batem à porta
Sendo que ainda não sou pessoa morta
Ouço esse bater
Tento não atender
Ouço o telefone tocar
Mais um a chamar
Em sua maioria
Não dizem a que vieram
Apenas suspiram de euforia
Querem abraços
Querem beijos
Querem amassos
Mas desaparecem sem volta prevista
E sem deixar nenhuma pista
Janelas se abrem
Portas se fecham
Corredores e mais corredores
A levar-me a algum lugar
A me trazer para algum lugar
Mais janelas e mais portas
A me engolir
A me expelir
Partos momentâneos
Vídeo clips instantâneos
Flashback a relampejar
Tempestade a exorcizar
O passado mal passado
Na calada da noite vem a calmaria
Até que alguém toca a campainha
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 13h15
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39
Casa Vítrea
Transparente, cristalina. Esses são os adjetivos da casa vítrea. De fora tudo se vê e de dentro tudo se mostra. A nudez ostensiva e exibicionista que se revela através das paredes inúteis e inermes de qualquer utilidade. Sem qualquer intenção de frivolidade, apesar de tão dúbia e perdida na dualidade do latente e do explícito que tenta passar incólume trajando reflexos de sol, vapores de calor ou ainda gotículas de chuva. O óbvio substitui o concreto em alicerce frágil do chão ao teto. Assim sendo, neste lar vítreo lar, ninguém ousa acertar o telhado do vizinho. Ninguém ousa mentir pelo interfone que não está sozinho. Não há calúnias que não se saiba. Não há tristeza que não se reflita na fachada. Enquanto o sexual e o escatológico chocam possíveis vizinhos, o medo é o de não poder se esconder em circunstâncias de previsíveis perigos. Todos podem estuprá-la, assim como faz o astro rei todas as manhãs e a lua serena todas as noites a seduzir. Tudo se lê, tudo se vê, tudo se sabe, mas mesmo assim não se lê tudo, não se vê tudo, não se sabe de tudo. Por mais cristalina e transparente que seja a tal residência, o que se reflete e se espelha na dita cuja, ainda oculta os mistérios mais recônditos, as fantasias mais sórdidas e os mais ínfimos sentimentos. Enquanto as paredes vítreas empoeiram de desleixo, velam aos poucos a incerteza e a esperança. Ocultam num esconde-esconde a tua silhueta que não se aproxima, nem mesmo a sua volta que não mais persevera e sim perece, assola, devasta em paredes leitosas e opacas num lusco-fusco sem fim. Enquanto isso em seu interior, me inebrio de niilismo inexpressivo e quase apaticamente pacifico. Reflito em reflexos e reflexões e decido meu mais límpido e diáfano desejo de que um raio a parta em milhares de fragmentos. Caquinhos transparentes, cristalinos, vítreos.
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 19h12
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38

Casa/Árida
A casa árida, "árido movie", move areias, move manhas e manhãs, move dunas, move entranhas, move o seco de um lugar para outro e de outro para qualquer lugar. Onde o tempo não se mede, nem se despe ou se despede. Que o tempo te leve para onde o vento não ousa te alcançar. A casa árida é feita de pó e ao pó voltará, de dunas que movem e removem, mas não te movem da dor do peito que um dia secará. A areia me envolve como lençóis, me sustenta como colchão e me muda de lugar do chão, sem que eu precise me movimentar. A casa árida não tem móveis, não faz parte dos imóveis, mas se move todo dia, quente sob o sol ou sob a noite fria. O tédio é música ao som das areias do tempo que se movem com o vento, a farfalharem, lento, lento, lento. Nada me leva para nenhum lugar. Nada te trás de volta para cá. Nenhum insignificante grão de areia se identifica entre tantos trilhões de seus infinitos irmãos gêmeos. Nenhuma notícia tua chega em carta deserta. A casa árida não tem área onde se possa ouvir uma ária. Sahara sem sala. Atacama sem cama. Não tem panelas para se arear. Não tem visitas para chegar. Não tem nada para se fazer. Somente esperar, esperar, esperar. Imagem granulada. TV fora do ar. Vidas secas me fazendo estatueta. Moro aqui dentro da ampulheta. A Casa árida é sempre assim.
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 15h19
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Poeteria Crônica 37

Entre Idas & Cidas
ApareCida
Parida
Nascida
Saída
Crescida
Robustecida
Desenvolvida
Embevecida
Convencida
Umedecida
Perseguida
Amadurecida
Envolvida
Comida
Bebida
Enlouquecida
Traída
Ferida
Emagrecida
Caída
Comovida
Envelhecida
Amortecida
Homicida
Inseticida
Pesticida
Praguicida
Emputecida
Fodida
Desfalecida
Repartida
Partida
Abduzida
Trazida
Rejuvenescida
Renascida
DesapareCida
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 11h36
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Poeteria Crônica 36

Crisálida
Até hoje, porém desde os primórdios de sua reles vida, Sophie jamais havia se sentido viva, mesmo porque, não tinha tempo para isso. Como esclarecer estranho fato? Tão jovem e esquálida, vivia a suspirar com as historietas felizes dos outros. Sendo assim, dedicava-se ao mundo alheio, servir a mãe, ajudar o pai, consolar a irmã, ajudava até romper-se em fadiga. Temente a Deus e desconhecedora das intrigas, considerava crível qualquer tipo de sofisma que chegasse aos seus clássicos ouvidos. Como chegava as notas de Mozart, Vivaldi, Bach e o submergível Mahler que a penetrava com seus adágios, como adagas vindas do desconhecido. Dádiva essa que provinha de Sarah, sua irmã que sentava-se ao piano mesmo quando estava com certa debilidade física. Com o peito arfante, Sophie se dedicava a um pequenino prazer, chegava a vidraça embaçada com vista para o jardim e ali sentia a vibração das asas das Lepidopteras - Sim! Ah! As Lepidopteras! - referindo-se as borboletas e mariposas em seus vários estágios de vida. Era assim que vibrava e bradava seu admirável pai. Um zoobotânico renomado e que já havia navegado por todos os oceanos. - Os quatro cantos do mundo! - como dizia o mesmo, inflado em orgulho. Mas Sophie havia passado a vida num colégio interno sob a sentinela das tão severas madres. Tal fardo, de infância e adolescência enfadonha, se deu devido as viagens de seu pai e a necessidade de sua mãe tão amorosa e que não deixava de acompanhar o esposo, o que definia como mais do que uma obrigação. O que a tão fiel esposa ignorava era a tamanha dedicação do marido as mariposas da noite onde ele se embriagava de perfumes nos cabarés enquanto dizia se tratar de reuniões de assuntos para homens – Para homens inteligentes! A companhia da calada Sophie não havia acalentado suficientemente “a pobre Sarah” – como diariamente seus pais se referiam. Foi assim que num gélido inverno, Sarah convalescendo-se de uma pneumonia teimou em dedilhar as quatro estações, sem alcançar o verão de seus dias ou a primavera de sua vida, entregou-se de repente ao oculto carrasco fazendo ressoar pela casa a última nota, a mais alta, a da partida. Seu pai inconsolável partiu em viagem sem data de retorno e sua mãe tão dedicada as obrigações de esposa não hesitou em segui-lo como um cão fiel. Ninguém se lembrou do que seria de Sophie, sozinha, só. Da janela, Sophie via as Lepidopteras, Papilionoideas e Hesperioideas. As asas batiam lhe transmitindo vida em seu corpo que vibrava por dentro como algo que ela desconhecia. O que fazer? Não tinha mais ninguém para cuidar, toda a vida da casa havia se esvaído. Só permanecia ela, ali perambulando em seu vestido branco, por uma casa sem alma, ela alma penada de si, fantasma que se assombrava sem ver luz, a luz de um novo dia. Não resistiu em buscar vida. Desceu ao sagrado local de trabalho de seu pai, do qual sempre foi incumbida de manter impecável. Ali havia um borboletário, e nele entrou, com várias espécies de plantas, frutos, e lepidópteras de várias subordens como as Zeuglopteras, Dachnonyphas, Monotrysias e Ditrysias. Sophie sentiu seu primeiro sopro de vida, livrou-se de seu vestido branco-lagarta, e crisálida de si, deitou-se sobre o chão, como veio ao mundo, deixou-se ser acariciada em todos os pontos de seu corpo imaculado, agora coberto pelas pequenas asas coloridas, confeccionando assim, o sonhado vestido de baile que sonhara. Quando achava que era a morte que vinha com aquela agitação de órgãos, sentiu-se extasiada como se chegasse ao éden. Ainda úmida e perdida, libertou a lepidópteras do claustro. Ainda crisálida, nem lagarta, nem borboleta, decidiu parir-se da casa-casulo-casca. Meses depois, pai e mãe chegaram cheios de aventuras nos olhos. Quando encontraram o borboletário vazio, o zoobotãnico não tolerou em saber que havia perdido as centenas de espécies catalogadas, de longa jornada de buscas intensas, sendo assim o desgosto o capturou em sua rede astuta. Já a esposa dedicada procurava sedenta a maldita libertadora de lepidópteras, para castigá-la como um inseto desprezível. Após correr esbravejando e blasfemando o dia em que havia gerado a tal ingrata, se deparou com a virtuosa e casta alcova. Vazia, apenas o casulo-vestido pendurado em um cabide, enquanto o vento fazia com que as portas do guarda-roupa batessem, assim como que querendo voar.
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 00h10
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Poeteria Crônica 35

Casa/Céu
Meio que um Terminal
Meio que uma Rodoviária
Estação de destinos
Faz assim a casa/céu
Tão frágil como de vidro
Tão sensível quanto papel
Mas não molha e não quebra
Ela é somente energia etérea
Alguns sobem para chegar todos os dias
Outros partem para descer sempre sempre
Para o planeta bola onde todo mundo não se entende
E se embola até o chapéu
Mas tudo tem que ser diferente na casa/céu
Onde nada é palpável
O bicho homem deixa de ser cascavel
Onde os segundos deslizam e são saboreados como mel
Enquanto no planeta bola todos perdem tempo
Discutindo e se amargurando com motivos-fel
Na casa/céu tem anjo
Tem arcanjo
Tem canja
Onde se manja manjar dos deuses
Mas não adianta ficar com vontade
Na casa/céu só se vai quando se é chamado
Não adianta prestar concurso
Desde que descemos de lá
O retorno tem dia marcado
Para que chorar o leite não derramado
É melhor aproveitar o planeta/bola
Enquanto estamos de passagem
Afinal na casa/céu não tem sacanagem
Ah! Que chatice!
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 15h37
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Poeteria Crônica 34

Ano
Novo ano novo
Novo livro livre
Novo mês mesquinho
Novo capítulo a capitar
Nova semana sem sal
Nova página pálida
Novo dia-amante
Páginas em branco borrado
Primeira frase fria
Primeiros novos momentos mornos
Primeiras novas linhas lépidas
Primeiros dígitos desjejum
Primeiro respirar roto
Primeiro pulsar pensativo
Primeiro olhar ouvindo ósculos
Páginas a voarem vingativas
Mesmas pessoas impessoais
Mesmos lugares deslocados
Mesmos móveis imóveis
Mesma rotina diversificada
Mesmo tédio tripudiante
Mesmas outras bocas bélicas
Mesmos diferentes corpos circo
Páginas para um não reescrever retilíneo
Novos primeiros passos parcos
Sobre o gelo que se parte perdendo-se...
Página que começa assim azul...
Era uma vez vida...
Um novo mundo mais...
Éramos nós ninguém...
Adão e Eva num infernal/paraíso...
Páginas queimam sobre o gelo an-gelical.O novo se congela sob o fogo-fátuo.
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 18h17
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Poeteria Crônica 33

Algodão Doce
Nascem cores em janeiros
Colorindo ao poucos
Quase que por inteiro
Antes que venha
O carnavalesco fevereiro
Beiro-beiro
Esse mês
Chuva de cheiro
Sinto minto
Explodo e beijo
Terra molhada
Amassos de pipoca
Mordidas de maçã do amor/tesão
Quero-quero
Nuvens cor de rosa de doce algodão
A virgenzinha nua alegrinha
Em saborosas tardes de solidão
Acaricia o corpo na nuvem fofa
Fazendo desfeita
Para os anjinhos que não podem bater punheta
Quero-quero
Doces beijinhos
Que vêm voando com os cantos dos passarinhos
A virgenzinha goza sem carinhos
Em orgasmos múltiplos
Causando espasmos no céu
Provocando o crepúsculo cor de rosa
Longe... longe...
Cai assim a tarde formosa
Agora sim tudo pode ser colorido
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 18h05
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Poeteria Crônica 32

Fui
Parto assim
Parto normal de mim
Parindo-me
Enfim
Repartindo o coração em dois
Cicatrizando logo depois
Com a alma aparte
Parto assim
Dissipando-me em partículas
Em meio a poeira da estrada profícua
E seguindo assim
A hora da partida de mim
Ponte que me transporta atrás da porta de meu cerne
Máquina do tempo que teletransporta o ermo
Humanos e enganos
Saio pela tangente do cano
Ponte que aponta
Apontamentos e postais
Seguindo o percurso bem-vindo
Indo e vindo
Indo...
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 17h42
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Poeteria Crônica 31

O Retorno da Poética
Ao som de sirenes ela despertou. Assustada e perdida no tempo, não sabia ao certo quanto tempo havia levado sua hibernação, mas sentia que algo não andava bem.
Seus filhinhos estavam na FEBEM, não faziam mais malabarismos com fogo nos faróis.
Foi então que a Poética novamente saiu nua para a rua e com sede e fome de procriar, mais promíscua do que nunca, se enfiou em todos os cantos e becos.
Desfilou pelas feiras e todos a quiseram provar como carne de primeira. No cinema pornô, todos achavam que ela havia saído de dentro da tela, Rosa Púrpura Nua do “Cairalho”.
No baile funk, a Poética se entregou a tudo e a todos mais uma vez, enquanto era chamada de cachorra.
- Ela está descontrolada!
Nas ruas, alguns a xingavam, lhe atiravam coisas, Maria Madalena pós-moderna.
Na FEBEM não lhe deixaram visitar seus filhos e ainda assim foi presa por atentado ao pudor.
Logo uma juíza a condenou sem direito a defesa ou explicação e a jogou numa cela com vinte homens presos pelos mais diversos crimes sórdidos, vinte esses, que talvez um dia na longínqua infância tenham ouvido falar da Poética, mas às vezes em algumas vidas não há tempo para isso.
Agora a Poética estava jogada numa cela suja, sendo possuída e repossuída como num "Gang Bang".
A Poética não resistiu e se desfez em mil pedacinhos sórdidos que escapavam por entre as grades como sujeira e ganhavam as ruas, se espalhavam pelo mundo.
Ainda que o gene mais forte havia prevalecido, novecentos e noventa e nove Poeminhas peladinhos cresciam robustos e em instantes saiam por aí metralhando Poesia em versos perdidos.
Somente a milésima parte, um único pedacinho não havia dado certo e tramava o que poderia fazer para combater aquelas centenas de seus irmãozinhos.
Precisaria de muita força, foi então que decidiu descansar enquanto pensava numa boa estratégia de ataque. Enquanto se espreguiçava e alongava seus membros, um belo corpo de mulher se fazia, e ao se olhar no espelho, sentiu desejo por si mesma, era hora de - a Sórdida ir para as ruas e esquinas ganhar vida, ganhar a vida...
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 15h14
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Poeteria Crônica 30

Amnésia
Existe uma página em branco
Pronta para ser preenchida
Digamos que ainda não está pronta
É apenas um vácuo aguardando acontecimentos
Um nada almejando histórias para contar
Uma folha vagando em brancas nuvens
E minha mente divaga...
Enquanto idéias navegam no mar morto
O trem com seus vagões em trilhos tortos
Portos aguardam vivas anedotas dos mortos
Atraco, pouso e descarrilo
Em lendas, cartas, fendas
Luzes estreitas de contos e contas
Pontos e pontas a furarem e a ferirem
A chorarem e a rirem
Mirem e calem
Falem e vão
Entre falanges e legiões
Farto-me em letras que me banham
A lavar os neurônios queimados
Memórias derramadas dos copos
Os demônios sopram sussurros lascivos
Os anjos contam trovas sem perigos
A dor de cabeça passa
Quem sabe se amanhã saberei o que escrever
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 01h57
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Poeteria Crônica 29

Casa/Árvore
Agora estou na casa/árvore
De alicerce/raiz e telhado/copa
Tronco/porão e paredes/galhos
Narizes – janelas – folhas
É a casa/árvore para você subir
Não é a do João de Barro
Mas o João pode vir
Parar o carro
Até tirar um sarro
É a casa adulta das doces lembranças da infância
Tão solidificadas em sorrisos que fogem por entre as folhagens
Risinhos e murmúrios que escorregam pelo tronco até as raízes
Escorregador de amor e dor a dar cor
As alminhas do passado fazem ciranda e rodopiam até desmaiarem
A floresta de João e de Maria
Das Marias de João
A árvore cresce como o tal pé de feijão
Até cutucar a cloaca da galinha dos ovos de ouro
Então espero no futuro presente o passado chegar
Repaginado em fábula encantadora
Sensual e arrebatadora
Espero que ele alcance a árvore
Que não para de crescer e não tem pretensão em ter elevador
Ele mora longe
O caminho é deserto
E o lobo mau passeia aqui por perto
Ainda bem!
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 20h54
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Poeteria Crônica 28
LLL
LLL, era assim que se denominava nas salas de bate papo, era assim que esquentava em dia de noite fria.
Desta maneira, a Loura atraía mais um estranho visitante para seu apartamento. Mais um dia, mais uma semana e mais um ano. Nada mudava.
Mesmo sendo uma executiva de sucesso, havia o ócio das tardes, Lânguida se afundava em sua confortável cadeira atrás de sua mesa de vidro, mesa de decisões, mas sobre sua própria vida, nada conseguia decidir, assim encerrava mais um dia, no alto de um arranha-céu.
A noite ela era outra, era Lasciva, era chegada a hora de viver sua verdadeira identidade escondida, LLL, e atrair para sua alcova gelada, mais uma presa, sugar sua boca, seu corpo, toda a sua energia, sentia-se uma vampira contemporânea.
Do lado de fora da janela sempre podia ver um homem estranho - digo estranho mesmo, no décimo segundo andar, estava ele ali sentado no parapeito, com sua fisionomia bossal, vestido em um sobretudo negro, fumando sem parar.
Mais uma noite, mais uma lingerie nova para mudar um pouco a rotina, uma outra marca de vinho dentro da taça ou sobre um novo corpo, novo copo de desejo, novo líquido quente escorrendo sobre seu mesmo e fatigado corpo.
Às vezes enquanto se entregava ao novo amante, enquanto o corpo dele conhecia o seu por dentro, ela fixava os olhos no estranho que pairava no ar pelo lado de fora, o bossal vigilante.
Alguns dias, conhecia seus amantes em cafés, em shoppings centers, e o fumante de sobretudo negro sempre a espreitar.
Foi numa noite chuvosa que descobriu quem era ele, um novo acompanhante lhe amarrou a cama com uma echarpe vermelha, fez e desfez, assim foi encontrada no dia seguinte, nua, amarrada e de olhos abertos perdidos no meio do nada, ou espelhando a face de seu último amante perturbado.
Agora LLL sabe quem é o homem de negro, pois é ao lado dele assim foi encontrada no dia seguinte, nua, amarrada e de olhos abertos perdidos no meio do nada, ou espelhando a face de seu que fuma também mais um cigarro, ambos sentados no parapeito da janela do décimo segundo andar. Enquanto sorriem, vêem o seu antigo corpo ser retirado, embalado e transportado, mais um caso de polícia sem solução.
Entre uma tragada e outra o anjo da morte a abraça com seu sobretudo negro. Um anjo gelado, mais de beijo quente que lhe diz:
- Vamos! Loura, Lânguida, Lasciva ...
Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 10h30
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