poeteria crônica contos/crônicas/poemas


24/06/2009


53

 



Um Cadilac Amarelo para Andrea W.

 

Era um cadilac amarelo. Pelo menos foi assim que me contou, Andrea W.. O cadilac parou e ela entrou, no cadilac amarelo. Quem guiava era nada mais, nada menos que seu “ex”, (a pergunta que não quer calar – qual deles?) que em dado momento era alguém atual, nada passado, tudo presente. Eles conversavam e o cadilac os levava, o cadilac amarelo, para algum lugar. Para a grande surpresa de Andrea W., eles não estavam a sós no cadilac. O cadilac amarelo trazia alguém no banco de trás. Era um peso morto! Não defino assim por força de expressão, era realmente um morto. Isso causou a inconformação de Andrea W.. Onde já se viu transportar um morto! Isso é um serviço para um carro funerário. Não para um cadilac amarelo. Mas com a maior naturalidade, seu ex - em forma de atual - explicou que era apenas um transporte para que o morto pudesse ser enterrado em sua terra natal, a família aguardava ansiosa. Sendo assim, seguiram com o processo de despacho funerário no cadilac, no cadilac amarelo. O despacho propriamente dito era feito numa ampla, muito ampla, ampla mesmo, agência dos Correios e Telégrafos. Com o maior cuidado para que o defunto não se lascasse ou trincasse, mercadoria frágil. Para isso, Andrea W., um ser sempre tão generoso, saiu pra comprar metros e metros de plástico bolha e embalou com capricho o presunto para viagem, sem  direito a freezer. Ficou estupefata com o preço exorbitante do sedex funesto que enviaria aquele que havia vindo do pó e ao pó voltaria. Irada sussurrou: - Enterre em qualquer lugar! Já morreu mesmo! Pra que tanto gasto e trabalho com um morto e ilustre desconhecido? Assim o peso/passado/morto seguiu selado, etiquetado e rotulado, foi despachado dessa pra melhor, ou pior. A estrada poderia ser seguida com ou sem o acompanhante do volante, bastava descer e seguir em frente. E desta maneira sumiria no horizonte rodoviário, o cadilac, o cadilac amarelo. Poderia ser um filme de David Lynch. Mas não, foi apenas um sonho de Andrea W.. não desses sonhos que se deseja, falo desses pesados, dos quais se acorda suado e sobressaltado de indigestão. Sonhos leves, doces e que são distribuídos gratuitamente, você pode encontrar em “Sonhos para Viagem”.

 

 

(Para saber quem é Andrea W., se é que ainda não sabe - conheça o blog “Sonhos para Viagem”, juntamente com os demais links no início da página).

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 19h33
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24/05/2009


52


 

O Atraso

 

Não é com descaso

Que falo do atraso

E sim com esperança e verossimilhança

Falo do atraso do que nunca se deu

Do descaso da sorte

Do relaxo do tempo

Da despreocupação dos anjos

Ou da árdua atenção de pequenos demônios

Pode não ser bem assim

E sim antônimos ou sinônimos

Falo do que estava em anexo

Do passado côncavo e do futuro convexo

Sem um complexo

Sem um amplexo

Foi tudo culpa do que não se pode culpar

A tempestade que despencou

O ônibus que não parou

O pneu que furou

Ou o táxi que passou reto

O buraco no caminho do concreto

O molho de chaves...

Que no último segundo desapareceu

O carteiro que foi atacado pelo cão Dirceu

Sendo assim tudo não se deu

Nada de tudo aconteceu

Quando ele se foi

Você apareceu

Na hora certa

No local exato

As horas/os minutos/os segundos...

Erraram e pagaram o pato

Ponteiros traidores conspirados com cães mordedores

Motoristas escapistas

Asfalto selvagem sob nuvens de rancores

Fizeram com que...

Não nos encontrássemos

Não nos amássemos

Não nos odiássemos

Não nos sentíssemos

Agora em não pensada hora nos damos de cara...

Numa imprevisível esquina qualquer

De algum lugar do mundo

E agora?

Tiro o atraso?

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 15h24
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24/04/2009


 

51

 

Luna


Adormeça-te! Oh amada!

Adormeça sob o céu azul-marinho de veludo.

Descansa-te sobre os sonhos de algodão,

Enquanto a madrugada se esvai em orvalho.

Teus cílios repousam a inocência do abandono da consciência diurna.

Tão real e tão imaginária.

Clamas pelo não acordar.

Por um despertar que não chegue breve.

Remete aos sonhos pictóricos, seus desejos mais incontidos do corpo teu.

Mesmo inconsciente sente o sopro da brisa quente como se fosse hálito alheio.

Brada silêncio inatingível postergado ao infinito que nunca chegará.

Sob a inveja da lua, tamanha alvura se expõe.

Fazendo assim com que a tal abandone a noite de vez.

Sob os macios tecidos do sono se mantém assim distante do mundo.

Em leito virginal, mal pode imaginar que a lua agora também adormece ao seu lado.

Tece assim um novo sonho, um novo sono, viagem lunar.

A nova companheira cobiça acordar com o repouso de um beijo teu.

Seus seios não ousam pronunciar os doces anseios,

Que se projetam por trás das pálpebras.

Seus cabelos se amarfanham em sedas ao amanhecer.

Estampas, cores, anunciam a alvorada.

A doce companheira tem que partir calada.

Acorda-te! Oh amada!

 

  

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 22h19
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24/03/2009


  50

      

 

Hoje é dia de M-U-L-H-E-R

 

Seria apenas hoje?

Hoje é dia da Maria, Úrsula, Laura, Helena, Elisa e Raquel...

Dia de Maria cuidar mais da casa em que trabalha, do que da própria, enquanto Úrsula pensa mais em sua carreira.

Dia de Laura, depois de tantos anos, não fazer nada, ao contrário de  Raquel que sai para namorar, antes que a mãe perceba.

Dia de Maria cuidar mais dos filhos da patroa e somente no fim do dia poder ver os seus, enquanto Úrsula se preocupa se está dando a devida atenção à sua casa e  a filha Elisa, suas outras duas grandes conquistas.

Dia de Laura pensar no que vai fazer de sua vida sem aquele turbilhão de obrigações de certa forma tão saudosas, já Raquel está muito longe de preocupações, apenas a escola e o namoro.

Maria tenta ser feliz em seu terceiro casamento, o oposto de Úrsula que está aproveitando sua vida de divorciada e cogita redescobrir a arte do namoro.

Laura descobre o que é ser aposentada estando viúva pela segunda vez, enquanto Elisa começa a pensar no vestibular.

Dia como todos os dias, mulheres como todas as mulheres, tão semelhantes, tão distintas.

Um espetáculo do nosso dia-a-dia, onde Úrsula encena. Maria, sua empregada tão fascinada adentra ao teatro pela primeira vez, na primeira fila está Dona Laura, a mãe coruja. E como sempre atrasada, Elisa com a amiga Raquel, querendo prestigiar a mãe em companhia da avó. Hoje é Dia de Mulher... de Márcia, Dona Umbelina, Ligia, Hilda, Elza, Renatinha...     

Parabéns às mulheres de todos os dias!!!

 

(Texto criado especialmente para o "Jornal 100% Vida" - publicado neste mês de março de 2.009)

 

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 19h29
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27/02/2009


49


          

          O que guardas?

         

         O que guardas dentro de ti? Oh! Possível ser humano! Guardas rancores de diversas cores, amores ou louvores.? Ou secas e murchas flores que jogastes pros tenores? Guardas fardas mostardas, mágoas retardadas, ou as fuças das diabas? Guardas anéis dos coronéis, pastéis que seriam servidos para os menestréis, ou papéis cheios de segredos dos infiéis? Guardas lembranças francas das ancas, memórias nuas das tuas, ruídos das rosas das bossas, retratos apáticos dos fatos e  pactos, que voaram ou secaram? Guardas o luxo e o lixo do passado/presente/futuro, dos furos, dos muros, das curas das juras, das mulas e das luas que cavalgaram a mando de quem te procurava e devastava campos sobre os flancos noturnos em épocas distintas. Agora somes, mas guardas, aguardas nomes. Guardas em milhares de gavetas, os pincéis secos Daqui de longe, e você Dilá ou Dalí de qualquer algum lugar. Abre as malas cheias de vazio,  e pinta Gala na beira do precipício. O que guardas? O que pintas? Sonhos proibidos de louca ou de Lorca entre touradas de Goya. Enquanto isso, nem te abalas com a pobre girafa em chamas. O que guardas? Oh! Pobre ser chamado humano? Dou a última pincelada, sem nenhum tom de Bresson.

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 19h31
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18/11/2008


48

 

 

 

          O Dia dos Mascarados

 

           Num dia incrível, o intrépido homem acordou, e não acreditou no que não viu, não viu seu rosto. Não falo da falta de expressão ou de uma crise matinal de mau humor. Tratava-se realmente da ausência da face. Seu crânio estava desprovido de fisionomia. Não havia boca pra falar ou comer, não havia mais os olhos, sua alma estava agora sem janelas. Respirava não sabia por onde. Será que era por baixo, seria possível? Enfim, não vem ao caso! Não tinha mais seu imponente nariz. De certa forma, até que depois de minutos a se mirar no espelho, gostou da idéia de não ser bonito para uns e feio para outros ou vice-versa. De agora em diante, simplesmente não era, e fim de conversa. Talvez agora pudesse encontrar um grande amor, alguém que gostasse do minimalismo. Mas ficou triste quando se lembrou que a boca não somente comia e dizia, mas beijava, jamais beijaria. Pensou em ir ao médico, mas e a vergonha de sair na rua. Mais que depressa se lembrou que era carnaval, ninguém estava em seu juízo perfeito, além do mais, no carnaval todos os gatos são multicoloridos e multifacetados. Correndo em direção a gaveta da cômoda, desenterrou a máscara do carnaval passado, já morta, criou vida em seu rosto sem face, ou em sua face sem rosto. Não seria mais um ninguém, seria um palhaço na avenida. Foi então que abriu a porta e enfrentou a multidão, saltitando ao som do trio elétrico eletrizante. Só parou quando notou que todos estavam parados e que o trio elétrico era um toca-discos. Todos estavam parados para vê-lo tão feliz. Timidamente e em câmera lenta deixou seus movimentos cessarem até o nada. Todos pareceram satisfeitos com sua atitude e tiraram suas máscaras atirando-as para o céu. Foi então que viu as máscaras voltarem para o chão enquanto a multidão com cara de feliz torcia para que ele fizesse o mesmo. Até que em meio a massa, surgiu alguém como ele, esperando-o sem dizer, encarando-o sem cara ou olhar, dizendo que o queria sem nada pronunciar, seus ombros seguidos de seu corpo pareciam clamar - Venha!

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 19h07
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04/10/2008


47

 

 

 

                 O Adeus da Cantora Careca

  

                 Não se sabe se era moda na época ou local, ou se tratava de suposta radioatividade. O fato é que a cantora era careca, sim. Estava sem cabelos e não parava de cantar, mal ajambrada dentro de seu meio-vestido de corte vagabundo e com estrelas coloridas desenhadas no crânio para disfarçar a mente fora de órbita. Era ao som da cantora careca que o soldado dava seus primeiros passos rumo a guerra. A solitária guerra onde se está sempre só. Até que encontrou no meio do nada, vestido com sua roupa camuflada, onde estava sozinho no meio da multidão, solitário encarou seu inimigo. Soube com certeza que poderia matar, mas na hora h, sua arma falhou. Ao contrário de matar, saiu prisioneiro, ferido e refém do outro, foi arrastado para um outro domínio. Enquanto isso a cantora em seu cabaré decadente repetia incessantemente o refrão: - Adeus meu amante! Adeus meu amigo! O soldado raptor partiu sem matar, sem amar, sem realmente ferir, sem deixar a porta bater. O soldado quase derrotado contou as cicatrizes, enquanto aguardava a próxima batalha. Enquanto a cantora careca gritava seus últimos lamentos. O soldado que ficou se lembrou da tatuagem nas costas do inimigo/amigo, que partiu sem olhar para trás, em letras cheias de rococó, podia-se perfeitamente ler  L - I - B - E - R - T - È. Ao fundo, o soldado atormentado tentava adormecer, com seu corpo alvo e nu sobre a relva. Mas seria impossível, já que não parava de ecoar dentro de sua cabeça, como bombas, as palavras da cantora careca – Adeus meu amante, adeus meu amigo!

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 17h58
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05/09/2008


46

 

 

                  Casa D’Água

 

                 A casa de água, vive aguando a vizinhança. Casa de água anunciando bonança. Que casa é essa? Casa mais ensopada do universo. Casa que escorre e morre em versos. Em paixões torrenciais. É a casa de cascatas. Casa essa de cachoeira. Casa fonte. Casa torneira. Casa chuveiro. Casa bacia. Casa banheira. Casa cheia de pontes. Casa que chove.  Casa que cai. Casa que corre. Casa que brota.  Casa de água remota. Casa que medra. Casa que vai, que sai. Casa que bebo e me regalo. Casa que nunca lavo. Casa de água que não deixa mágoa, lava e leva em água corrente. Casa que foge. Casa que corre dos olhos. Casa que banha sem medo. Casa que passa. Que reza o caminho do vento. Que às vezes mata de tanta água. Violenta ou em silêncio. Casa Oceano, casa rio, casa mar, casa riacho, casa goteira, acho. Casa que não para de pingar. Casa que vive molhada dos fundos a fachada. Casa submersa, que só se visita de escafandro. Casa para se mergulhar na paisagem. A mulher ainda seca, a admira do lado de dentro. Enquanto se molha só de olhá-la pela janela. Casa Azul. Casa transparente. Casa incolor. Casa piscina. Ela ainda o espera chegar, de submarino. Enquanto ele e o sono não vem, conta peixinhos. Um dourado, um tubarão, uma baleia, ops!

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 01h33
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07/08/2008


45

 

 

Manequins

 

Olá!

Nós somos as manequins

Poderíamos ser mesas

Poderíamos ser cadeiras

Poderíamos ser violões e violinos

Mas não, somos manequins

Sempre assim em sorriso de marfim

Posicionadas para a rua

Sempre imóveis

Irredutíveis e inabaláveis

Felizes?

Nossa nudez sempre exposta para que todos vejam

Nudez de trincas de fendas

Nudez fragmentada

Sexo revelado e oculto

Pornografia aceitável e acessível

Vênus de Milo contemporânea

Peitos e bundas tão duras

Tão invejadas

Logo vem um novo cenário

Um novo figurino

E estaremos prontas novamente

Aí sim

Nos despiremos

Para que você se vista

Nuas nas ruas

Espelhadas na vitrine

Que espelha seus desejos

Seus sonhos

Suas ilusões

Sua nudez vestida

Nos despimos para você

Na vitrine

A retina que reflete a metrópole

Que se inspira em retinas duras de madeira

Eu te vejo sumir por aí...

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 20h20
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30/06/2008


44

 

Cowboys and Angels

 

Enquanto edifícios se distraem

Caem

E mundos se desconstroem

Doem

Homens brincam de atirar

Os garotos em guerras

Eles dividem-se em mocinhos maus

E bandidos bons

Ou vice versa

Comem bombons

Enquanto a nuvem negra se dispersa

Vejo gênios voando em tapete persa

Implorando três pedidos em gemidos

O primeiro é John Wayne 

Em suas balas de mentira

Morreu faz tempo

O segundo é Ronald Regan

Após balas de mentira e de verdade das quais se esqueceu

Mas que também morreu

Por isso prefiro sonhar com o terceiro

Os olhos tristes e inquietos de James Dean

"Assim Caminha a Humanidade"

De "Vidas Amargas" e "Juventudes Transviadas"

Enquanto cowboys e anjos resolvem duelar

Decidem fazer amor sob a luz do luar

Balas geladas de coco esfarelam de suas bocas

E lambuzam seus corpos em beijos

Ao som de um jazz

Aqui jazz o stress

Enquanto os cowboys trabalham seus bíceps

E os anjos seus tríceps

Nada mais fitness

É hora de acordar

Pena que acabou

Pena de asa de anjo

Hoje faço canja

De asa de arcanjo

Manjo

 

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 23h53
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18/06/2008


43

 

Notas de Viagem

 

Séculos depois

Em notas de viagem

Sempre a viajar

E viajar, viajar

Alma a vagar

Por oceanos e Terras

Ares e chamas

Decido então sem proclamas

Que a partir de então

Alma cigana adormece a sonhar

Apenas por hora

Paixões nômades a se acalentar

Frutos e flores

Galhos e folhas

Com tronco e raiz

Local da matriz

De frente pro porto

De costas pro horto

Antigas árvores esquartejadas em dor

São agora bravos navios a vapor

Estão sempre a chegar

E a partir e ir e vir

Assisto ao espetáculo

Por hora

Em uniforme tronco receptáculo

E plena raiz

Com vista panorâmica em matiz

De frente pro mar

Não são ventos a derrubar

Que farfalham folhas a cair

É a experiente árvore que gargalha

A saculejar, a saculejar

Em raiz com vista pro mar

 

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 00h19
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06/05/2008


42

A Volta da Mulher-Livro

 

A mão aberta e espalmada acariciava mais uma vez aquele dorso, aquele tronco, aquela pele anunciada em letras douradas. Esperta e com capas abertas como um pára-quedas para amortecer a própria. Mas a mão do leitor de nada quis saber e enfiou-a, arquivando-a como que para sempre na estante. - Que petulância, que despautério! – pensava a mulher-livro. Depois que o tal leitor havia gozado, graças ao seu corpo e conteúdo, numa relação de alguns dias, já que o leitor era um tanto lento, e considerando que, seu conteúdo era  um tanto farto, resultando assim em uma semana de romance interno e externo. Estando assim satisfeito, lhe dava as costas, como algo vencido e superado em sua medíocre vida de leitor faminto. Mais um, mais uma, e partia para a outra prateleira a usufruir de mais um corpo, para se deleitar de outra ostra literária. - Não se abram, não se deixem levar, não se entreguem! – exclama a mulher livro ao ver-se  sendo descaradamente, trocada por outra, ou por outro. – Quanta promiscuidade! Mesmo em meio à multidão da estante, sentia-se só e pensava lá com suas páginas. Um dia ele quis me levar para sua casa, sem poder impedir, fui. Sei que, o que o atraiu foi minha capa, é a primeira coisa que atrai alguém, em segundo lugar foi o título - Incrível como os ditos seres humanos ainda se prendem tanto, e agem tanto, movidos por títulos! Chegando em seu lar, ele me desnudava, me acariciava página a página com suas mãos de pianista, tocando-me como um instrumento raro. Conheceu-me totalmente por dentro, primeiro desfrutando de minha contra-capa, degustando minha introdução, deliciando-se com minhas linhas e entrelinhas, devorando-me em capítulos, fartando-se com brilho nos olhos a cada revelação, depois chegou comigo ao prazer final, salivando com tal ambrosia literária, com olhar malicioso e saciado. Não me abriria mais com suas mãos, não colocaria mais seu marcador de couro dentro de mim, dividindo-me em partes. Então segurou-me fechada, assim descansei um bocado de tempo, quase adormecendo em repouso sobre seu sexo intumescido. Doce ilusão momentânea, não me abriu mais, não me tocou, apenas arquivou-me como tantas outras, como tantos outros. Sendo assim, seria tudo ou nada, atirei-me quando ele passava, com reflexo ligeiro, este me amparou com palma macia, não resistiu, abriu-me, vociferou uma de minhas partes mais prazerosas, não resistindo, manteve-me aberta, a devorar-me novamente. Assim, levou-me novamente para sua cama, sorrindo. Era só isso que eu queria, mais uma vez. Havia valido a pena esperar, já havia se passado cinqüenta anos, até atirar-me a sua frente após decidir o arriscado suicídio com final feliz. – A volta da mulher- livro. Não sabia quanto duraria, mas quem sabe? Poderia tornar-se seu livro de cabeceira definitivo, e deitado sobre o criado-mudo e sob o despertador calado, eterno triângulo amoroso adormecido ao lado do amado leitor envelhecido.

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 13h52
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20/04/2008


41

As Vidas Normais de Wong Kar Wai

"My Blueberry Nights" ou "Beijo Roubado" - Tortas, olhares tristes, perdidos numa cidade escura, quase abandonada, trens passando, brigas ao fundo, letreiros em néon como sempre. Tudo passa rápido, mas existe sempre alguém ali estacionado no tempo, ou melhor, em um balcão. Vidas sempre normais, onde muitas vezes deixamos de ser protagonistas de nossas próprias vidas, para que se dê lugar a vida dos outros. "Cinema Noir" contemporâneo. Olhares, lágrimas, ruas, desencontros, pessoas comuns. Olhos que não querem dizer, bocas que não querem pedir. Idas e vindas. Tudo volta para o começo. Beijos não dados, beijos roubados. Vidas se cruzam, pessoas se conhecem casualmente. Momentos felizes e calmaria saem do caos e da infelicidade. Desfechos comuns como na vida real. Quase felizes. Mesmo porque, na vida real não existe fim. Pura poesia do concreto, das estradas e das esquinas. Imagens que dizem mais que mil palavras. Isto é mais ou menos Wong Kar Wai - no cinema/crònica do dia-a-dia.

 

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 22h42
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25/03/2008


40

http://farm1.static.flickr.com/102/384244301_dadf00c702.jpg

 

Os Fantasmas se Divertem

 

Quando os fantasmas batem à porta

Sendo que ainda não sou pessoa morta

Ouço esse bater

Tento não atender

Ouço o telefone tocar

Mais um a chamar

Em sua maioria

Não dizem a que vieram

Apenas suspiram de euforia

Querem abraços

Querem beijos

Querem amassos

Mas desaparecem sem volta prevista

E sem deixar nenhuma pista

Janelas se abrem

Portas se fecham

Corredores e mais corredores

A levar-me a algum lugar

A me trazer para algum lugar

Mais janelas e mais portas

A me engolir

A me expelir

Partos momentâneos

Vídeo clips instantâneos

Flashback a relampejar

Tempestade a exorcizar

O passado mal passado

Na calada da noite vem a calmaria

Até que alguém toca a campainha

 

 

 

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 13h15
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08/03/2008


39

    

 

     Casa Vítrea

 

     Transparente, cristalina. Esses são os adjetivos da casa vítrea. De fora tudo se vê e de dentro tudo se mostra. A nudez ostensiva e exibicionista que se revela através das paredes inúteis e inermes de qualquer utilidade. Sem qualquer intenção de frivolidade, apesar de tão dúbia e perdida  na dualidade do latente e do explícito que tenta passar incólume trajando reflexos de sol, vapores de calor ou ainda gotículas de chuva. O óbvio substitui o concreto em alicerce frágil do chão ao teto. Assim sendo, neste lar vítreo lar, ninguém ousa acertar o telhado do vizinho. Ninguém ousa mentir pelo interfone que não está sozinho. Não há calúnias que não se saiba. Não há tristeza que não se reflita na fachada. Enquanto o sexual e o escatológico chocam possíveis vizinhos, o medo é o de não poder se esconder em circunstâncias de previsíveis perigos. Todos podem estuprá-la, assim como faz o astro rei todas as manhãs e a lua serena todas as noites a seduzir. Tudo se lê, tudo se vê, tudo se sabe, mas mesmo assim não se lê tudo, não se vê tudo, não se sabe de tudo. Por mais cristalina e transparente que seja a tal residência, o que se reflete e se espelha na dita cuja, ainda oculta os mistérios mais recônditos, as fantasias mais sórdidas e os mais ínfimos sentimentos. Enquanto as paredes vítreas empoeiram de desleixo, velam aos poucos a incerteza e a esperança. Ocultam num esconde-esconde a tua silhueta que não se aproxima, nem mesmo a sua volta que não mais persevera e sim perece, assola, devasta em paredes leitosas e opacas num lusco-fusco sem fim. Enquanto isso em seu interior, me inebrio de niilismo inexpressivo e quase apaticamente pacifico. Reflito em reflexos e reflexões e decido meu mais límpido e diáfano  desejo de que um raio a parta em milhares de fragmentos. Caquinhos transparentes, cristalinos, vítreos.

Escrito por Escrito por Cesar Póvero às 19h12
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